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Eternos amantes
Na escuridão silenciosa do quarto fechado, ergo-me da cama com cuidado. Ao meu lado ela ainda dorme, entregue ao cansaço e aos sonhos da tranquilidade. A sua tranquilidade é oposta ao meu martírio, um contraste de agonias que me estremece e faz a cabeça pesar mais do que deveria na profusão agonizante dos meus pensamentos. Sento-me na cadeira e acendo o meu cigarro. Apenas o vermelho da ponta incandescente circula na escuridão como um vaga-lume de fogo. A primeira tragada me acalma a tensão de aqui estar, no meu quarto, olhando para minha cama, vendo a minha mulher dormir como se o mundo fosse um lugar de serenidade, tão distante dos meus amargos pesadelos.
Seu corpo nu sobre a cama, o lençol beijando suas costas, o cabelo preto jogado de lado, a pele clara marcada pelos meus dedos alucinados, ela é ainda mais bonita no silêncio da madrugada. Da cadeira, tenho vontade de me lançar sobre ela e amá-la, devorar os seus desejos, arrancá-la da serenidade dos sonhos e possuí-la com ferocidade instintiva até calar o monstro que me toma quando olho para ela, dormindo, passiva, frágil ao meu dispor. Mas não o faço.
Luciana dorme, eu não. Queria poder calar a voz que grita em minha consciência perturbada por um amor sem cura, uma ferida aberta que teima em sangrar depois do sexo, depois do ardor da volúpia. Não digo que seja justo, mas não consigo apagar o rosto sorridente das minhas lembranças, não consigo amargar o gosto doce do beijo que me faz delirar como um louco à porta do céu.
Minha querida, olhar para teu corpo me estremece. Gosto de ti, minha querida amante, mas não posso deixar de amá-la. Gosto de ti, minha doce Luciana, mas não posso retirar de mim o perfume dela, posto que está tão empregado em meus poros, que, por mais que queira, ele não sai. Deveria pedir-te o perdão, mas não posso me arrepender dos pecados que não julgo ter cometido. Gosto de ti, mas não posso te amar.
Inclinas a cabeça devagar. Estás acordada. Teu corpo desenha uma curva belíssima diante dos meus olhos. Eu me remexo na cadeira, tu percebes na escuridão que não estou ao teu lado. Inspiras com força e sentes o cheiro forte da fumaça do cigarro. Resmungas, mas, como é do teu feitio, não dizes nada. Com a tua voz mansa me perguntas por que não me vou deitar contigo. Respondo que não tardo; que irei terminar o cigarro primeiro. Sabes o quanto gosto de fumar à noite, depois do sexo, o longo trago que me põe de volta ao mundo real. Sei que não gostas que eu fume no quarto, sei o quanto a fumaça te irritas, mas não posso ir à varanda como vim ao mundo. Gosto de te olhar enquanto fumo, explico sem te comover. Pedes para que eu volte aos lençois, pedes para que eu volte ao seu corpo. Prometo-te que não tardo, mas sei que não voltarei agora. Não posso buscar os teus braços enquanto minha mente está presa nos olhos dela. Invento-te uma desculpa para que durmas à minha espera. Logo dormirás, estás tão sonolenta, que não vês que acendo outro cigarro e me perco de mim mesmo.
Luciana, chamo teu nome baixinho para me certificar que voltaste a dormir. Não me respondes, como eu imaginava. Novamente foste pega pela mão do sono e conduzida para a paz que serenas. Levanto-me devagar, sem fazer barulho. Pego a calça jeans e uma camisa qualquer. Saio do quarto, deixando-te na solidão da noite fria. Visto-me no corredor e antes que me dê conta de mim, estou na porta. Resolvo sair um pouco, caminhar pela cidade adormecida. Não consigo mais ficar em casa, não consigo mais sentir teu cheiro no ar. Quis que a fumaça do cigarro disfarçasse o teu cheiro, mas ele está em tudo, Luciana, em todo o apartamento. Desculpe-me, querida, mas preciso de ar, preciso sentir o vento no rosto, preciso me desvencilhar de ti quando penso nela. O porteiro me olho de lado quando passo por ele. O portão se abre num clique seco e eu entro no mundo real.
Estou na rua. Um carro passa, outro para. Não há o movimento constante de passos nesta hora. Deve ser três da manhã, mas na pressa não peguei o relógio. A cidade está tão violenta que não quis levar nada além da carteira de identidade metida no bolso. Sem dinheiro, sem horas, sem rumo, ponho-me andar pela solidão das ruas adormecidas. O céu está aberto, há estrelas, mas faz frio, e eu não trouxe o agasalho. Meus braços tremem, minhas mãos doem, mas pouco me importa. Meu coração agora é frio também.
Penso nela. Queria discar o número que tantas vezes disquei, mas não trouxe comigo o celular. Poderia ligar de um telefone público, mas depois da agenda eletrônica nunca mais consegui guardar um número de memória, nem mesmo o dela. Não ligaria de qualquer forma, é apenas a vontade bruta de ouvi-la dizer-me alô. Apenas uma palavra pela sua voz macia já me aliviaria a tormenta, mas não vou ligar, vou continuar com o meu desejo latente sem que possa revelá-lo. E por que não revelo? É porque tenho medo de me passar como tolo em procurá-la depois de tudo, depois de tanto tempo. Sei que não me entendes nem entendes esta minha loucura, mas quero que me ouças sem nada te dizer; quero que me compreendas sem que nada diga por hora.
Passos calados num mundo de vozes na cabeça. Quem me vê nesta minha caminhada deve me achar um louco, e sou. Sou louco, Luciana! Sou louco por ter na cama o teu amor e na cabeça o amor dela. Queria poder dá-lo a ti, mas ele não me pertence. É dela, meu amor é dela como todo o meu eu é. Não minto a ti, minha querida companheira, sempre soubeste que tinha este amor doente em minhas veias. Nunca te escondi o meu sofrimento, e mesmo assim me aceitas em teu abraço, mesmo assim me tens em tua cama. Não me cobras nada, por isso te admiro tanto; por isso dói tanto me lembrar dela depois que me entrego a ti. E, quantas vezes eu devo ter dito num sussurro insano o nome que tanto te causa arrepios de desprazer enquanto nos amamos? Sei que não foram poucas as vezes em que te machuquei com o sibilar despercebido ao teu ouvido. Queria me desculpar por isso, mas sei que não existe perdão por esta falta cruel. Admiro-te por seres tão forte ao mesmo tempo que te odeio por seres tão compassiva ao meu delírio. Tu és minha amiga e confidente nas minhas horas de ruína, tu és minha amante e mulher nas minhas horas de fulgor. Não mereces o pouco que te ofereço, mereces muito mais, porém nada tenho a dar. Sabias disso quanto me acolheste nos braços. Sabias que eu sempre fui e serei dela quando me estendeste a mão delicada e me tomaste no teu colo para me embalares como criança que teme a noite solitária. Quem se aproveitou de quem? Fui eu que me aproveitei do teu amor solidário ou foste tu que te aproveitaste do meu devaneio? Os dois temos culpa. Mas maior culpa é a minha por ter cativado o teu sentimento maior quando deveríamos ter mantido a amizade antiga que fizemos crescer nas andanças da vida. Sempre me amaste como homem, e eu sempre te vi como irmão. Acredito que seja por isso que depois de estar dentro de ti sinto o remorso me corroer. Deves me achar um canalha por dizer isso, mas, como homem, não tenho princípios, ajo por um instinto animal sedento pelo teu sexo delirante, porém depois, quando o fogo da carne se abranda, tenho raiva de mim por pecar contra o teu ser.
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